Preços Abusivos em Grandes Eventos: A Crise de Acomodação e a Contradição em Sede de COP30

por Redação
2 de agosto de 2025 às 15h02min

Por Rafael Vaisman

Nos últimos dias, temos visto um intenso debate sobre os preços abusivos de hospedagem na cidade de Belém, escolhida para sediar a COP30 em 2025. A crítica tem sido quase imediata, especialmente por parte de grupos mais conservadores que, na ânsia de culpar o governo federal, ignoram uma realidade muito mais ampla e complexa. A questão não é apenas do governo, mas de um sistema de mercado que sempre se aproveita de grandes eventos para elevar preços de forma descontrolada.

O problema não está apenas no preço de uma diária, mas no acesso à experiência de eventos como a COP30, que se propõem a discutir soluções globais para um futuro mais sustentável.

A COP30 e o Reflexo de uma Realidade Crítica
A escolha de Belém como sede da COP30 foi, sem dúvida, uma decisão simbólica e estratégica. A Amazônia, que vive uma pressão crescente devido ao desmatamento e à degradação ambiental, deveria ser o palco perfeito para discussões globais sobre o futuro do planeta. No entanto, o que temos presenciado nos últimos meses são denúncias constantes de um mercado predatório de turismo, com a especulação de preços de hospedagem ultrapassando o limite do razoável.

De acordo com notícias publicadas em veículos como o The Guardian e Reuters, as tarifas de hotéis em Belém chegam a alcançar R$ 2.000 por noite durante a COP30. Essa prática não é novidade e reflete uma realidade observada em diversos grandes eventos internacionais. A própria COP28, realizada em Dubai em 2023, enfrentou uma situação semelhante, com preços chegando a US$ 5.000 por noite em alguns hotéis, o que levou a ONU a intervir para tentar conter o aumento excessivo.

A Prática Abusiva do Mercado: Não é Exclusivo da COP30
O que ocorre em Belém, portanto, não é um caso isolado da política brasileira ou do governo federal. Trata-se de uma prática de mercado que afeta diversos eventos, principalmente quando a demanda é elevada e a oferta de infraestrutura é limitada.

Vamos olhar para outros eventos grandes ao redor do mundo. O Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, é um exemplo clássico. A hospedagem durante o evento pode ultrapassar facilmente € 2.000 por noite, com as tarifas disparando em até 400% durante o evento. A situação não é diferente para o SXSW, festival de música e tecnologia em Austin, Texas, onde os preços de hospedagem saltam de US$ 150 para US$ 1.500 durante os dias de programação.

No Brasil, vemos a mesma lógica se aplicar em eventos como o Agrishow, em Ribeirão Preto, que ocorre todos os anos. Em 2023, fui pessoalmente impactado por diárias que ultrapassavam R$ 2.000, mesmo em hotéis 3 estrelas. Esses são exemplos claros de mercado especulativo, onde os preços são elevados sem um vínculo com o valor real do serviço oferecido, apenas pela alta demanda do evento.

O Impacto de uma Gestão de Mercado Predatória
O aumento descontrolado dos preços de hospedagem não é apenas um problema financeiro para os participantes, mas uma barreira para o acesso ao evento. A COP30 não pode ser um evento elitizado, onde apenas empresas grandes ou pessoas com alto poder aquisitivo conseguem participar. Um evento global como este deveria ser inclusivo, refletindo o caráter coletivo e urgente das questões ambientais. O aumento de preços limita o acesso de ONGs, grupos comunitários, representantes de países em desenvolvimento e outros segmentos essenciais para o debate.

Além disso, essa prática não é sustentável. Eventos internacionais como a COP30, quando vistos sob a ótica da hospedagem e da economia de mercado, muitas vezes desvirtuam sua proposta. O que deveria ser uma oportunidade para transformar práticas globais se torna um ciclo de exclusão e especulação, em que o impacto real do evento se dilui entre cifras e mercados.

O Que Pode Ser Feito: Regulação e Soluções Criativas
O governo federal tem, sem dúvida, a responsabilidade de intervir no mercado de forma mais eficiente. Um caminho possível seria a regulação temporária de preços durante grandes eventos, garantindo que hotéis e plataformas de hospedagem como Airbnb sigam uma tabela de valores estabelecida por órgãos competentes.

No entanto, mais do que regular os preços, a sociedade brasileira precisa também repensar o conceito de “economia de experiência”. A COP30, assim como outros grandes eventos, deveria incentivar a economia local — criando alternativas mais acessíveis, como hospedagens comunitárias, parcerias com ONGs para receber delegações, e até mobilização de infraestrutura já existente nas cidades e regiões do evento.

Além disso, em vez de esperar que grandes conglomerados e empresas tomem as rédeas da organização, a COP30 poderia se tornar um exemplo de como os eventos globais podem ser mais descentralizados e colaborativos, sem esquecer das comunidades locais, que são as mais impactadas pelas mudanças climáticas.

A Resposta ao Desafio: Uma Reflexão Final
Como já mencionei em outras ocasiões, a Amazônia não precisa de palanque. Ela precisa de ação concreta. Em vez de transformar a COP30 em uma oportunidade para fazer política ideológica, precisamos usar esse evento como uma plataforma para mobilizar recursos e soluções que garantam que todos, independentemente da classe social ou origem, possam contribuir para a construção de um futuro sustentável.

A COP30 não pode ser um evento elitista, onde os ricos e poderosos ditam as regras. Ela deve ser uma oportunidade inclusiva, não apenas em termos de discurso, mas em termos de acesso real às discussões e decisões que afetam o futuro do planeta.