A Taxonomia Sustentável Brasileira: novo nome, velho dilema

por Redação
5 de setembro de 2025 às 11h04min

Por Rafael Vaisman

Desde o Relatório Brundtland (1987), quando o termo “desenvolvimento sustentável” foi consagrado, a humanidade vem colecionando marcos e terminologias para tentar organizar a transição rumo a um futuro viável1. Vieram depois o Pacto Global da ONU (2000)2, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM, 2000–2015), os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS, 2015–2030)3, e mais recentemente a avalanche de frameworks corporativos: ESG (Environmental, Social and Governance)4, TCFD (Task Force on Climate-related Financial Disclosures)5, GRI (Global Reporting Initiative), entre tantos outros.

O Brasil agora apresenta sua própria inovação semântica: a TSB – Taxonomia Sustentável Brasileira, a ser lançada como vitrine durante a COP30, em Belém.

O que é a TSB?

A TSB é um sistema de classificação de atividades econômicas que busca definir, com base científica e consulta pública, o que pode ser considerado “sustentável” no contexto brasileiro. Inspirada na taxonomia europeia6, estabelece três critérios centrais:

  1. Contribuição substancial para objetivos ambientais e sociais.
  2. Não causar danos significativos a outros objetivos.
  3. Respeitar salvaguardas mínimas (legais e éticas).

A promessa: transparência e capital

É inegável que uma taxonomia pode oferecer clareza para investidores e governos. O Banco Mundial já destacou que “sem classificações objetivas, o risco de greenwashing mina a credibilidade dos mercados financeiros sustentáveis”7.
A TSB, nesse sentido, é um avanço: promete direcionar capital público e privado para atividades que realmente geram impacto positivo.

O dilema: a subjetividade como risco

Mas aqui está o ponto central: o que pode ser mais subjetivo do que “contribuição substancial”, “não causar danos significativos” e “respeitar salvaguardas mínimas”?

Quem decide o que é substancial?
O que significa não causar “danos significativos”?
E quais são os limites das salvaguardas éticas e legais em um país em que a legislação ambiental é constantemente tensionada?

Ao tentar resolver o problema da definição, a TSB pode acabar reforçando-o: se tudo couber nos critérios, tudo será sustentável. E aí perderemos, como sociedade, a força transformadora da palavra.

A história se repete

Ao longo das últimas décadas, multiplicamos terminologias: ODM, ODS, ESG, Net Zero, Nature Positive, Economia Circular, Finanças Verdes, Créditos de Carbono, e agora Taxonomia Sustentável. Essa criatividade mostra nossa vontade de avançar, mas também evidencia uma fragilidade: confundimos nomenclatura com prática.

Como destaca Kate Raworth, criadora da Economia Donut (2017), “os nomes são apenas molduras; o que importa é como eles guiam comportamentos”8.

Conclusão: taxar ou não taxar?

A TSB pode ser um instrumento poderoso contra o greenwashing, mas também pode se tornar parte dele se não assumir sua limitação essencial: sustentabilidade não é um ponto de chegada, mas uma prática viva e inacabada.

A história nos mostra que criar nomes somos ótimos. O desafio — agora e sempre — é transformar esses nomes em realidade.


Notas de rodapé


Footnotes

  1. United Nations. Our Common Future (Relatório Brundtland), Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1987. ↩
  2. United Nations Global Compact, lançado em 2000 por Kofi Annan. ↩
  3. United Nations. Transforming our world: the 2030 Agenda for Sustainable Development, 2015. ↩
  4. Friede, G., Busch, T., & Bassen, A. (2015). ESG and financial performance: aggregated evidence from more than 2000 empirical studies. Journal of Sustainable Finance & Investment. ↩
  5. Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), Relatório Final, 2017. ↩
  6. European Commission. EU Taxonomy for Sustainable Activities. Bruxelas, 2020. ↩
  7. World Bank (2020). Transformative Climate Finance: A new approach for climate finance to achieve low-carbon resilient development. ↩
  8. Raworth, K. Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist. Random House, 2017