Exposição propõe a reconexão com a natureza, com a ancestralidade, o mistério e o divino

por Redação
28 de novembro de 2025 às 09h51min

O evento ‘Panapaná’ abre as portas nesta sexta-feira, das  17h às 19h, na FUNESC, em João Pessoa

A cidade de João Pessoa recebe a 10ª edição do Panapaná, projeto que já recebeu diversos artistas renomados, tais como José Rufino, Alice Vinagre, Adriano Machado, Guto Oca (artista participante da atual 36ª Bienal de São Paulo); além de vários curadores como Raphael Fonseca, Clarissa Diniz, Luciara Ribeiro entre outras. O evento acontece na FUNESC, que fica na rua Abdias Gomes de Almeida, 800 – Tambauzinho, em João Pessoa.

Em 2025, o projeto apresenta a exposição coletiva “Reencantamento”, assinada pela curadoria de Lucas Dilacerda, e com a participação dos artistas Aídyne Martins, Felipe Tomaz de Morais, Inara Marchi, Kal Yoga, e Luiza Ribeiro; além da artista homenageada Alice Vinagre.

A mostra reúne obras instalativas que abordam as poéticas da água e do tempo. Inspirado nos pensamentos de Nego Bispo e Ailton Krenak, o conceito de reencantamento se contrapõe ao “desencantamento do mundo”, processo pelo qual a racionalidade moderna e colonial expulsou o mistério, o sagrado e a magia da experiência humana.

Nesse sentido, o reencantamento propõe uma retomada das forças mágicas que atravessam o mundo, uma reconexão com a Natureza, com a ancestralidade, o mistério e o divino. A arte, nesse contexto, opera como dispositivo de reencantamento: restabelece nossos laços com a realidade ao redor e transforma nossa maneira de ser e estar no mundo. Ao reunir razão e emoção, ciência e espiritualidade, humano e não humano, o conceito rompe com a separação cartesiana e as lógicas coloniais.

A água, em sua matéria viva e em sua simbologia profunda, aparece na exposição como força ancestral que atravessa corpos, cidades e tempos. Elemento vital, ela é também um organismo de memória, um arquivo líquido que carrega gestos, histórias e parentescos mais antigos que a própria humanidade.

A cidade é um campo de disputa permanente, atravessada por forças que moldam e rasuram o território aos interesses do capital, da especulação imobiliária e das políticas de esquecimento. Suas ruas, casas e becos carregam vestígios de mundos que insistem em permanecer, mesmo enquanto empreendimentos expulsam moradores, rompem laços comunitários e silenciam cosmologias ancestrais que sustentaram o chão por gerações. Nesse cenário, a ruína surge como matéria poética e política: fragmento que resiste ao apagamento, dobra do tempo onde passado, presente e futuro coexistem.

Diante dessas forças que atravessam o mundo (a magia da água, a matéria sensível da cidade, a persistência das ruínas e a urgência do reencantamento) a exposição afirma a arte como campo de retomada, cuidado e imaginação. Se o desencantamento moderno tentou esvaziar a Terra de sua alma, aqui reivindicamos o contrário: reconhecemos que cada gesto artístico pode reabrir fendas no real, devolvendo-nos à vibração primeira que une corpos, territórios e temporalidades.

Ao convocar a ancestralidade, a memória e o mistério como tecnologias de vida, o Panapaná propõe não apenas olhar o mundo, mas recriá-lo; não apenas lembrar, mas continuar a linha de quem veio antes; não apenas habitar a cidade, mas sonhá-la outra vez.

O evento segue em cartaz até o dia 29 de dezembro.