7 de agosto de 2025 às 06h11min
Por Rafael Vaisman – Empreendedor socioambiental, palestrante e colunista
Copenhague, 2009. Uma história que me atravessa até hoje. A primeira COP da qual participei foi a COP15, em Copenhague, em 2009. Na época, eu estava em plena jornada de mestrado na Lund University, na Suécia, desenvolvendo uma pesquisa interna em colaboração com o governo brasileiro. Jovem, idealista e cheio de perguntas, entrei nas salas onde se decidiam (ou não) os rumos do clima global. Ali, tive o privilégio de ver de perto líderes como Barack Obama discursando. Mas também, de ver um sistema emperrado, burocrático, ineficaz.
Foi lá que conheci o Gilberto Gil, então ex-ministro da Cultura e eterno embaixador da alma brasileira. Tiramos uma foto juntos. E ele me disse com ternura, olhando nos meus olhos:
“Você é muito novo… Vai ter que lutar muito ainda para mudar essa realidade.”

Nunca esqueci isso. Porque ele estava certo. A COP15 terminou em frustração. Sem acordos importantes, sem compromissos reais, com muito dinheiro gasto e pouca transformação. Foi um fracasso coletivo. Não de um governo. De um sistema. De uma sociedade global que ainda prioriza o lucro, a velocidade e o mercado, acima da justiça, da equidade e da vida.
Avançamos 15 edições. Chegamos à COP30. No Brasil. Na Amazônia. E os sintomas se repetem. Só que agora é aqui. Em casa. Belém foi escolhida como cidade-sede da COP30. E isso, por si só, já é histórico. Mas o que veio junto foi um turbilhão de críticas — muitas delas legítimas.
Hotéis cobrando R$ 5.000 por noite, quartos de Airbnb com beliche sendo alugados como suítes cinco estrelas, obras que cortam áreas verdes, desigualdade escancarada. E, como sempre, começam os gritos: “A culpa é do governo!” “Não teve tempo para se organizar!” “O Brasil não está preparado!” Mas será mesmo só isso? O Brasil teve tempo? Sim. Mas o tempo não resolve tudo. Aqui está a linha do tempo:
Dez 2022 – A candidatura brasileira foi formalizada à ONU ainda sob o governo anterior.
Jan 2023 – A nova gestão assume e traz a agenda climática de volta ao centro.
Mai 2023 – Belém ganha apoio público internacional (inclusive de Emmanuel Macron).
Dez 2023 – ONU confirma o Brasil como país-sede da COP30 e Belém como cidade-sede.
Ago 2025 – Já se passaram 20 meses. A COP acontece em 100 dias. Teremos menos de 2 anos de preparação real.
Então a pergunta não é: “Tivemos tempo?” Mas sim: “Conseguimos enfrentar o que herdamos?” Tempo não resolve legado histórico. Belém, como muitas cidades da Amazônia e do Norte do Brasil, vive o que Milton Santos chamava de “meio técnico-científico-informacional de uso seletivo”: uma modernidade que chega fragmentada, atrasada, e quase sempre excludente. A COP30 está escancarando isso para o mundo.
Estamos tentando preparar uma cidade para sediar o maior evento climático do planeta em 2 anos, enquanto o básico — saneamento, mobilidade, planejamento urbano — não foi feito em 40. E o preço da hospedagem? O Estado pode fazer algo? Essa talvez seja a pergunta mais feita nos últimos dias. A resposta é complexa — mas clara: Sim, o Estado brasileiro pode intervir em preços abusivos.
A Constituição garante esse poder (Art. 170). O Código de Defesa do Consumidor proíbe aumentos sem justa causa. E a Lei de Defesa da Concorrência (CADE) pode investigar cartel ou abuso. Mas… Na prática, quase nunca se faz isso. Por quê? Porque não temos regulação eficaz para plataformas como o Airbnb. Porque não conseguimos impor limites reais a redes internacionais de hotelaria, e precificação da Accor, do Ibis, do Mercure ou de redes internacionais com sede na França. Porque falta fiscalização, agilidade e, muitas vezes, vontade política.
Como dizia Pierre Bourdieu, ‘vivemos sob um Estado que muitas vezes é capturado pelos interesses do próprio mercado que deveria regular’. Pode até poder — mas raramente consegue. E quase nunca quer. Preço abusivo? Sim. Mas essa também é a regra do jogo global. Não dá para falar de Belém como se fosse um caso isolado. Veja os dados:
- Sharm El‑Sheikh (COP27) registrou o maior aumento: até 10 vezes o preço normal, segundo relatos locais.
- Glasgow (COP26) foi marcado por aumentos de até 5 vezes, tanto em hotéis quanto em vilas alugadas.
- Dubai (COP28) teve impacto mais contido — cerca de 4,2× de aumento médio, embora hotéis premium tenham cobrado 8x mais.
Média geral das últimas COPs: ≈ 5,5 vezes acima do preço normal de hospedagem. E por que isso importa? Porque esse padrão mostra que a especulação em eventos de grande porte não é exceção — é a norma. Se Belém hoje cobra R$ 5.000 por diária, estamos falando de um aumento de 8 a 9 vezes o valor de mercado local. Sim, é grave. Mas está alinhado com os piores padrões globais.
E quem mais sofre? As delegações do Sul Global, coletivos, ONGs e representantes da sociedade civil, que simplesmente não conseguem pagar para estar presentes. Na COP26, muitos países e lideranças não compareceram por falta de hospedagem acessível. A consequência é clara: a exclusão climática começa na recepção do hotel. O capitalismo de palco e a COP como produto
Ver o Brasil tentando sediar uma COP, enquanto enfrenta tudo isso, me remete à ideia de David Harvey sobre a “acumulação por espoliação”: “O território vira mercadoria. A cidade vira vitrine. O povo vira estatística.”
É o que estamos vendo: Obras emergenciais para inglês ver; Gentrificação disfarçada de revitalização; Greenwashing em cima de avenida que corta floresta. A filósofa Nancy Fraser chama isso de crise de legitimação do capitalismo. Um sistema que promete salvar o planeta — enquanto lucra com seu colapso.
O sociólogo Pierre Bourdieu, em ‘A Miséria do Mundo’, já alertava sobre o risco de políticas públicas tentarem operar dentro de uma lógica de mercado que só conhece a linguagem da vantagem individual. Ainda dá tempo? Sim, ainda dá. Mas só se a gente entender que: A COP30 não é sobre o Brasil mostrar que sabe sediar um evento. É sobre mostrar que consegue enfrentar suas contradições e gerar justiça real — não só performance estética. Isso exige:
- Regulação temporária e emergencial de abusos no mercado local
- Programas de turismo comunitário e acolhimento solidário
- Transparência nas obras
E, acima de tudo, coerência entre discurso e prática
Reflexão: a contradição que sustenta a máquina
A COP30 revela, com potência, o paradoxo do Sul Global: “Nos cobram soluções climáticas, mas nos entregaram um sistema que não permite governar. Nos culpam por não “organizar direito” a COP, mas se esquecem que nós herdamos cidades precarizadas, serviços subfinanciados e uma elite econômica que se apropria de cada oportunidade para lucro imediato — mesmo que às custas da imagem do país.
E o que eu aprendi, desde aquela foto com Gilberto Gil em Copenhague? Que não é um governo que fracassa. É uma civilização que normaliza o absurdo, que transforma floresta em passarela, moradia em ativo financeiro, evento em moeda diplomática. O Brasil não vai fracassar por falta de tempo. Vai fracassar se continuar tentando se moldar a um sistema que sabota a justiça desde o princípio.
Mas se a COP30 for espaço de escuta, coragem e reparação, ela pode marcar a história. E eu sigo, como Gil me disse, “lutando ainda muito, por muitos anos” — para ver esse legado nascer. Não apenas em contratos. Mas em floresta em pé, gente digna e futuro possível.