COP30: Entre o que avançou, o que falta e o que precisamos ver para além das manchetes

por Redação
27 de novembro de 2025 às 13h27min

Por Rafael Vaisman

A COP30, em Belém, foi mais do que um encontro político: foi um deslocamento simbólico do eixo da discussão climática para o centro da maior infraestrutura natural do planeta. Como pesquisador e empreendedor na área de Sustentabilidade , inovação e eventos, vejo a realização da conferência na Amazônia como um convite — quase uma convocação — para repensarmos a relação entre desenvolvimento, natureza e futuro.

A COP sempre foi, para mim, mais do que um evento internacional: é quase um espelho do que a humanidade consegue — ou não consegue — fazer coletivamente quando é chamada a lidar com seus próprios limites. Em 2009, quando estive na COP15 em Copenhague, saí de lá carregando duas coisas: a frustração de ver líderes do mundo todo incapazes de fechar um acordo decente;
e uma frase que nunca esqueci, dita pelo Gilberto Gil, depois de uma conversa rápida comigo:

“Continue nessa luta. Justiça climática é coisa séria, menino.”

Voltei para o Brasil com isso na cabeça, e confesso: até hoje essa frase me empurra.

Por isso, quando olho para a COP30, não fico preso às manchetes sobre incêndios, filas, logística ou críticas nas redes — especialmente vindas do setor de eventos, que às vezes embarca no ruído político sem perceber que está olhando para o lado errado. Mas, como aprendi na prática, tanto na COP15 quanto nos 23 anos em sustentabilidade e inovação, os ruídos passam — os impactos ficam.

E o que ficou da COP30 é muito mais profundo do que a bolha digital consegue enxergar.

Por isso, quando analiso a COP30, me incomoda ver como parte significativa da atenção se perdeu em ruídos periféricos. E isso não é moralismo — é sociologia.

1. A distração coletiva: por que ficamos presos ao superficial

Como costuma ocorrer em grandes eventos globais, parte expressiva do debate público se concentrou no imediatismo dos incidentes: filas, incêndios, protestos, tensões operacionais e falhas logísticas pontuais. Não é novidade — e não é um julgamento.

Como explica Anthony Giddens, sociedades modernas tendem a deslocar a percepção do risco, fixando-se no que é visível e imediato, enquanto ignoram os riscos estruturais — climáticos, ecológicos, civilizatórios — que realmente importam.

Essa lógica aparece também em outros autores que ajudam a interpretar o fenômeno:

Ulrich Beck, com sua “sociedade de risco”, mostrando que o perigo real é justamente o que não aparece nas manchetes.

Zygmunt Bauman, ao explicar como a “modernidade líquida” cria hiperatenção ao curto prazo e ao caos episódico.

Bruno Latour, ao mostrar que nossas crises são híbridas — políticas, ambientais, tecnológicas — e, por isso, mal compreendidas.

Naomi Klein, que argumenta que a crise climática é percebida mais como narrativa do que como realidade material.

Kate Raworth, que demonstra que insistimos em debater a superfície enquanto os limites planetários são violados silenciosamente.

Esses autores ajudam a entender por que parte da sociedade  — — acabou olhando mais para a fila do portão do que para o conteúdo da conferência. É uma limitação humana, não uma falha caracterológica.

Mas é justamente por isso que precisamos recolocar o foco onde ele deveria estar

2. O que realmente avançou e por que isso importa

Apesar dos ruídos, a COP30 deixou avanços estruturais que merecem destaque. Entre eles:

• O Acelerador Global de Implementação (AGI)

Um mecanismo pensado para transformar compromissos em políticas efetivas.

Depois de ver a frustração da COP15, considero isso uma evolução civilizatória.

• Indicadores de Belém para Adaptação

Um marco histórico.

A adaptação — sempre negligenciada — ganhou métricas claras, comparáveis e aplicáveis globalmente.

• Avanço no financiamento climático

Aqui, tivemos boas notícias que passaram quase despercebidas:

  • O TFFF (Fundo de Florestas Tropicais) recebeu US$ 5,5 bilhões em promessas iniciais. É o maior movimento financeiro recente direcionado exclusivamente à proteção das florestas tropicais.
  • O Fundo Clima captou R$ 8,84 bilhões durante a COP30, ampliando significativamente sua capacidade de financiar projetos de mitigação, adaptação e transição energética no Brasil.

Esses números importam porque mostram algo raro: dinheiro público e privado convergindo para a preservação ambiental — o que é a chave para transformar intenções em resultados concretos.

• Protagonismo indígena real

Pela primeira vez, não apenas participação simbólica — mas influência direta.

E isso, comprovadamente, reduz emissões e protege a biodiversidade.

• Reafirmação do multilateralismo

Num mundo fragmentado, isso já é um triunfo.

3. O que ficou aquém e não pode ser empurrado para 2031

• A ausência de um compromisso claro para eliminar combustíveis fósseis

É a maior lacuna do acordo.

• Financiamento ainda insuficiente

O valor mobilizado é positivo, mas ainda muito abaixo dos US$ 5,9 trilhões necessários até 2030.

• Documento final tímido

O consenso possível ficou aquém da urgência científica — algo que vivi pessoalmente na COP15 e infelizmente ainda se repete.

4. A Amazônia não é cenário  é infraestrutura

A floresta regula:

  • 20% da água doce superficial do planeta
  • 70% do regime de chuvas que sustenta o PIB da América do Sul
  • 150 a 200 bilhões de toneladas de carbono
  • 10% da biodiversidade mundial

Não existe economia forte em planeta frágil.

Não existe negócio promissor em ecossistema colapsado.

Não existe evento de grande porte sem estabilidade climática mínima.

5. Oportunidades para o Brasil — e para o setor de eventos

Belém revelou ao mundo a força da bioeconomia, das comunidades tradicionais e da ciência brasileira.

E, olhando como profissional de eventos e ESG, vejo possibilidades enormes:

  • Feiras como laboratórios vivos de circularidade
  • Eventos como plataformas de rastreabilidade real
  • Promotores como arquitetos de microcidades temporárias eficientes
  • ESG como diferencial competitivo, e não como verniz verde

A COP30 abriu uma avenida de oportunidades para quem quer inovar com responsabilidade.

6. Conclusão: é preciso maturidade para olhar para o que importa

A COP30 não foi perfeita — nenhuma COP é.

Mas foi histórica.

E merece ser analisada para além dos ruídos, memes e tensões momentâneas.

Enquanto parte da sociedade se ocupa com protestos, filas ou falhas pontuais, o planeta atravessa sua década mais crítica. Enquanto manchetes destacam incidentes isolados, vivemos o ano mais quente já registrado. Enquanto discutimos logística e pequenos episódios, o colapso ecológico avança — silencioso, estrutural, decisivo.

A COP passa.

Mas o compromisso com a preservação — e com as futuras gerações — permanece.

E, como ouvi de Gilberto Gil em Copenhague, numa frase que me persegue desde a COP15:

“Justiça climática não é moda. É futuro.”

Belém nos lembrou disso com força — com a força da floresta, dos povos, da ciência e de uma verdade simples: não existe economia forte em um planeta frágil.

Nossa política, nosso desenvolvimento, nossos mercados e até nossas festas, feiras e eventos dependem de sistemas naturais que não podem ser substituídos.

Se escolhermos olhar para além do imediato, descobriremos que a COP30 não foi apenas um evento:

foi uma oportunidade histórica de reconectar o mundo com a Amazônia — e de reconectar a Amazônia com aquilo que mais importa no fim do dia: vida, dignidade, futuro.

Essa é a conversa que realmente importa.

E essa é a conversa que precisamos continuar — juntos, com coragem, responsabilidade e visão de longo prazo.

Porque no fim, não se trata de esquerda ou direita, de filas ou de ruído, de memes ou incêndios pontuais.

Se trata de como queremos existir num planeta que já não tolera distrações.

Belém abriu a trilha.

Cabe a nós seguir adiante.