Luto gestacional: relatos ajudam a romper o silêncio e promover acolhimento

por Redação
30 de julho de 2025 às 08h54min

Mães compartilham experiências e trazem visibilidade a um tipo de perda ainda pouco reconhecida

Para a maioria das mulheres, a gravidez é vivida como um momento de felicidade, expectativa e construção de planos. Ao receber a notícia da gestação, algo se transforma internamente: o coração e a mente passam a se preparar para uma nova vida. Mas, para muitas, esse ciclo é interrompido de forma inesperada. E o que deveria ser motivo de celebração se torna uma dor vivida em silêncio. O luto pela perda de um bebê durante a gestação ainda é pouco reconhecido socialmente e, por isso, frequentemente solitário.

Segundo a revista científica The Lancet, a cada minuto, 44 mulheres sofrem abortos espontâneos no mundo, o que corresponde a cerca de 15% das gestações. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou aproximadamente 20 mil óbitos fetais apenas em 2024. Ainda que esses números revelem a dimensão do problema, o tema continua invisível para muitos. Nos últimos anos, no entanto, relatos de mulheres, especialmente figuras públicas, têm trazido à tona a urgência de discutir o luto gestacional com mais empatia e acolhimento.

A apresentadora da TV Globo Tati Machado, por exemplo, perdeu um bebê em maio deste ano, às vésperas do parto. Já Sabrina Sato revelou recentemente ter passado por dois abortos espontâneos no ano passado, ainda no início da gestação. Ao compartilharem essas experiências com o público, ambas contribuíram para romper o silêncio e legitimar um sofrimento real, vivido por milhares de mulheres.

De acordo com Simône Lira, psicóloga especialista em luto do cemitério e crematório Morada da Paz, a morte ainda é um tabu em nossa cultura, embora faça parte da existência.

“Quando falamos em luto gestacional, nos referimos a uma morte que ocorre no ventre materno, um espaço onde costumamos associar a vida. Esse é um tipo de luto que, socialmente, não costuma ser reconhecido. Ele é silenciado e invalidado. E mesmo falas bem-intencionadas como ‘logo você engravida de novo’ ou ‘ainda bem que foi no começo’, podem causar dor”, pontua.

Para a psicóloga, quando mulheres públicas expõem suas histórias, outras mães se sentem autorizadas a falar sobre a própria dor.

“Isso pode gerar identificação, acolhimento e a sensação de pertencimento. Além disso, conhecer as formas de enfrentamento utilizadas por outras mulheres amplia o repertório emocional de quem está em processo de luto e mostra que é possível atravessar essa dor”, afirma Simône.

A farmacêutica Bárbara Leite, de 41 anos, perdeu seu bebê aos seis meses e meio de gestação, em 2012. Hoje, mais de uma década depois, ela consegue falar com mais clareza sobre a experiência.

“Ouvir outras mulheres que tiveram a mesma experiência me ajudou a entender que não era só eu que tinha passado por isso. Muitas passaram e superaram. Falar é bom porque pode ajudar sua mente a se acostumar e entender que aconteceu, mas passou, que a vida continua e pode ser boa mesmo depois disso”, destaca.

Causas da perda gestacional

Segundo a ginecologista, obstetra e professora da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Jaboatão, Helaine Rosenthal, as causas da perda gestacional variam conforme o período da gravidez. Entre os principais fatores estão: insuficiência hormonal, má-formação fetal, anomalias cromossômicas, miomas, infecções, alterações uterinas e incompetência istmo-cervical.

“Também há causas relacionadas ao estado clínico da gestante, como doenças crônicas, hipertensão grave, diabetes ou hipertireoidismo descompensados, além do uso de drogas ilícitas ou medicamentos teratogênicos, que comprometem o desenvolvimento do feto”, explica.