Sobre existir, na prática

por Redação
2 de junho de 2026 às 12h59min

Por Germana Accioly é jornalista e escritora

O último mês foi uma verdadeira revolução, quase um inferno astral fora de época, se é que isso existe. Este é um relato pessoal, de uma experiência que, se hoje desejo partilhar, é por acreditar que é imensamente necessária a reflexão coletiva. 

Levei um baque tão grande que emudeci. Foi preciso parar, refletir, redesenhar cenários de vida. Todo golpe profundo tem sua mensagem. A primeira delas é, de cara, que sim, o poder e o dinheiro rondam e podem impregnar a nossa militância.

Não estamos imunes ao capitalismo e toda a sua cadeia. Se acredito em Paulo Freire, sei que os efeitos da doença do poder podem se manifestar em todas as pessoas. É preciso estar vigilante. Não sei se agradeço por não ter percebido o que estava em curso, ou se olho para mim com certo desdém. Essa confiança absurda que tenho no caráter das pessoas, na vida, nos processos é veneno e remédio. Pensando melhor, desejo assim continuar. 

Neste duelo permanente chego a acreditar que o feminismo se perdeu no caminho,desaprendeu lições. Fazer o enfrentamento de questões sociais estruturais requer aprender o que diz Bel Hooks: “O amor é o que o amor faz”. Leia aqui a expressão amor com a maior amplitude que você possa alcançar. 

Não existe transformação social quando nos utilizamos das mesmas ferramentas que produzem nossas gaiolas. Falo isso com pesar, tentando diluir a densidade de existir. As bandeiras que carregamos precisam sair dos mastros e atingir dimensões humanas. No olho do furacão, paradoxalmente, o silêncio é sepulcral. No ápice da angústia, a solidão e o isolamento batem de frente com a filosofia do acolhimento e falam mais alto. 

– Mexeu com uma, mexeu com todas, aprendi em lições anteriores. Mas a teoria confronta a vida, infelizmente! O sistema premia o erro, replicando perversamente o procedimento padrão. Lembrei das mulheres vítimas de abuso sexual que, culpabilizadas e invisibilizadas por um crime que não cometeram, passam a ter vergonha de quem são. Senti vergonha de não ter compreendido pessoas, situações. E se não o fiz, foi por ser analfabeta em algumas linguagens. Ter vergonha de estar vulnerável é dos piores sentimentos.

O que mais incomoda, instiga e intriga é que são mulheres líderes que “abafam o caso”. Mulheres que certamente já foram silenciadas. Ninguém que estava envolvida na rede teve uma atitude de amparo, escuta. As poucas conversas que tive, entrecortadas, claramente percebendo que as interlocutoras escolhiam “as boas” palavras e expressões, foram provocadas por mim. 

Nenhum gesto efetivo de mediação foi feito. Tudo estava bem higienizado para que todas ficassem de mãos limpas no processo. Nessas horas, o jurídico vale mais do que o humano. É a melhor blindagem. Mensagens orientadas por advogadas, vazias de sentidos. O mundo se mostrou uma escada sem corrimão, um carro sem freio, um barco sem leme. Mensagens lacônicas, o calendário correndo, a violência contaminando meu emocional. A reprodução do modus operandi machista e patriarcal foi o que mais assustou, ao ponto de duvidar da minha capacidade de discernimento. 

Não estamos construindo uma democracia feminista, não estamos trabalhando a mudança dos paradigmas. Estamos apenas mudando as lideranças e fazendo o que o sistema nos ensinou: punindo, castigando, diminuindo e mostrando que o poder e o dinheiro são os senhores. Estamos reproduzindo as estruturas que desejamos combater.

Nas minhas andanças também estava presente o adoecimento que a política e a militância provocam. Eu já havia detectado esses sintomas quando escrevi o Relatório dos Mandatos Ativistas no Brasil. Tenho a convicção de que o ativismo precisa estar mais preparado para entrar no jogo vil da política institucional, sob pena de reproduzir e provocar burnout e violências aos montes. A sociedade precisa, urgentemente, se revisar. 

Nos últimos anos ouvi muito sobre mudança de governança, sobre a força coletiva das mulheres, sobre a importância de alternância de poder e sobre equidade. Sempre fez todo sentido para mim, aliás. Dediquei anos da minha vida a uma trajetória coerente baseada nesses princípios. Eis que me vejo desamparada, justamente, por mulheres. Democracia não se aprende só na escola. Democracia, ética e coerência a gente traz no peito. “Não pode haver amor sem justiça”, ouço de Bel Hooks. 

Este é um desabafo e um alerta com base no que me acometeu, mas não é um caso isolado. Falo de mim, mas quantas de nós têm vivências semelhantes? Quero seguir acreditando que a vida tem a me presentear o horizonte amplo, como uma ciranda que em seu ritmo traz o extrato do que acredito. Mulheres que olham e se reconhecem, na prática. O futuro é um horizonte vasto e nunca é tarde para transformar. A impermanência é o melhor dos antídotos, ensinando que tudo passa e novos cenários se erguem. É assustador perceber que, com eles, a força para lutar vem mais límpida. Para construir um mundo outro, vamos precisar de todas, no mundo.