Uma carta para os pais de Bianca

por Redação
28 de julho de 2025 às 11h19min

Por Renata Maia

Queridos pais da Bianca,

Eu não os conheço.
Mas estou aqui.
Com o peito aberto, com os olhos marejados e o coração esticado até vocês.
Demorei pra escrever.
Porque há dores que pedem silêncio antes de qualquer palavra.
Demorei… porque precisei sentar com a minha própria dor.

Tenho uma filha de onze anos.
Também autista.
Também cheia de mundo dentro.
E quando soube da Bianca, senti como se o chão se partisse um pouco também aqui em casa.

Pensei em vocês.
No susto.
Na ausência que faz barulho em cada canto.
Na casa que já não respira igual.
Na rotina que perdeu o nome.

Mas pensei também em tudo o que veio antes.
Nos muitos “sim” que vocês disseram pra ela.
Nos passeios, nas descobertas, no encantamento que ela deve ter sentido tantas vezes com o mundo.
Pensei no jeito como vocês devem ter preparado cada saída com tanto cuidado.
Nos perigos evitados que ninguém viu.
Nos detalhes que só quem vive de perto conhece.

E aí eu só consegui sentir gratidão.
Gratidão por tudo o que vocês fizeram por ela.
Por terem segurado. Protegido. Amado.
Por todas as vezes em que foram abrigo.
Por todas as vezes em que correram atrás, se anteciparam, cuidaram.
E também — e principalmente — por terem deixado Bianca viver.

Porque tem algo de muito bonito e muito corajoso em deixar nossos filhos viverem.
Mesmo quando o medo nos aperta o peito.
Mesmo quando o mundo é duro demais.

E porque, sim, tragédias acontecem.
Com qualquer criança.
Com qualquer família.
Não porque faltou amor, cuidado ou responsabilidade.
Mas porque viver, por si só, envolve risco.
Porque a vida não oferece garantias, mesmo quando fazemos tudo certo.

O que eu quero dizer é: obrigada.
Por terem permitido que Bianca tocasse o mundo com os próprios pés.
Por terem confiado.
Por terem dado a ela uma vida com experiências, com vento no rosto, com a liberdade possível.
Por não terem deixado que ela fosse apenas uma menina dentro de casa, trancada pelas incertezas.

Vocês deram a Bianca o que todo filho deveria receber: amor em movimento.
Amor que acompanha, mas não limita.
Amor que cuida sem prender.
Amor que diz: vai, filha. Eu tô aqui.

Sei que agora o mundo parece hostil.
Que o luto vem com perguntas duras demais.
Mas, por favor, guardem isso com carinho:
Nada foi em vão.
Tudo que vocês ofereceram a ela segue vivo.
Na memória, no gesto, no amor.

Bianca viveu.
E isso é imenso.

Com afeto,

Renata Maia
@renatamarquesmaia